sábado, 15 de janeiro de 2011

Os primeiros dois anos de vida - A construção da autonomia

Desde que nasce até aos dois anos, o bebé vai atingir um enorme grau de desenvolvimento. A maturação do seu sistema nervoso central, os estímulos do ambiente e sociofamiliares, vão proporcionar-lhe uma autonomia crescente, uma aquisição de novas competências, numa sequência natural.
 
COMPORTAMENTOS / CAPACIDADES / COMPETÊNCIAS

REGULAÇÃO MAIS EFICAZ DOS ESTÁDIOS. Ao longo do primeiro ano de vida, as estruturas neurológicas vão evoluindo de forma a permitir que haja um controlo do comportamento e que os estádios de comportamento sejam mais regulares. É importante que seja estimulado pelos pais – O facto de falar-lhe, brincar, dedicar-lhe tempo e atenção, fazer com que o bebé sinta a sua presença e que veja a sua imagem, tranquiliza-o e é fundamental para que prolongue a sua permanência no estádio vigil. Por outro lado, irá melhorar os seus períodos de repouso, o sono passará a ser mais prolongado e sem interrupções, adquirindo um ritmo entre sono-vigil muito compensador para pais e criança.
Há bebés para quem este equilíbrio será mais difícil de alcançar. São aqueles que têm crises de choro contínuo, sem causa aparente e que dificilmente se consegue consolar, causando uma grande ansiedade e preocupação nos pais, que inevitavelmente irá ser transferida para o bebé, deixando-o ainda mais excitado. Para que seja feita a aquisição do ritmo sono-vigil, é necessário que os pais criem hábitos e capacidade de se relacionarem de forma calma com a criança.

CAPACIDADES SENSORIAIS. As competências sensoriais são desenvolvidas rapidamente durante o primeiro ano de vida.
Na visão, aumenta a capacidade de focar objectos ainda mais distantes – dá-se o nome de acomodação. À medida que a acomodação visual aumenta, o bebé vai descobrindo imagens cada vez mais afastadas.
Progressivamente, irá melhorar a sua capacidade de distinguir expressões faciais, sentindo-se atraído por caras sorridentes e apreensão por expressões menos simpáticas. A capacidade de focalizar, depende da visão binocular, que consiste na conjunção dos movimentos dos dois olhos de forma a coincidir e fundir as imagens obtidas por cada um deles. (Por volta dos 6 meses, já têm uma visão binocular correcta).
A audição desenvolve-se desde muito cedo e está intimamente ligada à aquisição da linguagem. Por volta dos 2 meses, inicia sons e balbucios, o início da conversa e aos 6 meses, ouve atentamente o discurso da mãe e em resposta balbucia sons guturais, imitando a sua entoação.
A audição é de extrema importância para a comunicação, pelo que cedo se deve fazer o despiste da capacidade auditiva, se houver motivos para avaliar.
O tacto está ligado aos afectos. A sensibilidade táctil que é estimulada pela carícia, pelo aconchego materno, transmite ao bebé afecto e segurança.
A ciência diz, a respeito dos bebés que recebem massagens regularmente, que estes dormem mais e melhor, choram menos, ganham peso com mais facilidade, têm menos crises de apneia e problemas pulmonares, se mostram mais extrovertidos e menos agressivos. A lista de benefícios é longa.
Também desenvolverá a capacidade de distinguir, pelo tacto, os objectos pequenos e a agarrá-los, primeiro com a palma da mão e depois com o uso do polegar e indicador.

COMPREENSÃO E CONHECIMENTO. É necessário conhecer o modo como a criança entende o meio onde está inserida e o modo em como ela o percepciona, para que se possa fazer uma interpretação correcta sobre o seu comportamento.
Nos primeiros dois anos a criança aprende que os acontecimentos têm causas, que os objectos têm diferentes utilidades, que podem representar símbolos e que existem mesmo quando não estão presentes. O recém-nascido não tem esta última percepção – tudo o que não vê, não existe.
Por volta dos 4-6 meses já começa a olhar para o sítio onde viu desaparecer um objecto. Já consegue (primitivamente) associar algumas ideias, como por exemplo, o ruído da preparação do biberão, acalma-o.
Aos 6 meses e até aos 8, começa a brincar sentado permitindo-lhe controlar o espaço onde brinca, observando e levando objectos à boca. Já tem a noção de que o objecto existe, embora não o veja e chora para reavê-lo. Também começa a perceber a relação causa-efeito, antecipando alguns acontecimentos pelos sons familiares.
Aos 10 meses, encontra facilmente um objecto que viu esconder, compreende mais facilmente o que lhe dizem, diz não com a cabeça e adeus com a mão percebendo o significado desses gestos. Já não leva os objectos à boca, mas examina a sua forma, textura e peso, atribuindo-lhes utilidades, como por exemplo, sabe que a colher serve para comer e o copo para beber.
Ao ano e meio, já percebe perfeitamente para que servem os objectos que lhe são mais familiares e utiliza-os correctamente, como por exemplo, leva o telefone ao ouvido e fala.
Até ter dois anos, a sua capacidade de raciocínio e a aquisição da linguagem, permite-lhe expressar-se melhor. Brinca ao faz de conta, imitando o comportamento dos adultos – é o inicio do jogo simbólico.




MOTRICIDADE

POSTURA E MOVIMENTO. A sequência do desenvolvimento motor é idêntica a quase todas as crianças e apesar de esta sequência ser, mais ou menos constante, existem factores fundamentais que podem fazer variar as aquisições de criança para criança: a velocidade de maturação neurológica e a quantidade e qualidade das experiências motoras que lhe são proporcionadas.
É com a experimentação, com a repetição da tentativa e erro, que a criança vai conseguir aprender. Por isso, podem existir grandes variações na progressão do desenvolvimento motor, sem que estas possam ser consideradas anormais.
Até aos 3 meses consegue levantar a cabeça e sustentá-la alinhada com o tronco quando se encontra na posição de sentado. Quando acordado, se sentá-lo numa cadeirinha apropriada ficando com as costas inclinadas cerca de 45º, não tem qualquer inconveniente e o bebé irá apreciar tudo o que se passa à sua volta.
Dos 3 aos 6 meses, segura a cabeça quando sentado e consegue manter-se assim se tiver apoio lateral e posterior. Segura, manipula e brinca com objectos ao seu alcance. Agarra-os juntando as mãos em linha média e leva-os à boca. Quando deitado de bruços, apoia-se nos antebraços e levanta a cabeça.
Dos 6 aos 9 meses, consegue manter-se sentado sem apoios e mantém-se de pé quando apoiado numa mesa ou nas grades da cama. Vira-se sozinho e levanta vigorosamente a cabeça apoiado nos braços esticados. Para agarrar os brinquedos que deseja, rasteja até eles e atira-os para longe (jogo do bebé-atira e educador-apanha, pode repetir-se vezes sem conta, para delícia da criança – é uma forma de diálogo, ainda primitiva). Perto dos 9 meses, agarra os objectos mais pequenos, fazendo uma pinça com o dedo polegar e dedo indicador.
Dos 9 aos 12 meses, está habilitado a explorar os ambientes onde se encontra, pois gatinha, anda apoiado no mobiliário da casa e fá-lo em marcha lateral. Põe-se de pé sozinho e se lhe dermos as mãos, já consegue dar os primeiros passos.
Aos 15 meses começa a andar sem apoio e o cuidado a esta altura deve ser redobrado de formas a evitar quedas e acidentes.
Dos 18 aos 24 meses, anda com destreza, movendo-se com facilidade. Corre, sobe degraus (primeiro com um pé e depois com o outro).


SOCIALIZAÇÃO

COMPORTAMENTO AFECTIVO E SOCIAL. O laço afectivo que o bebé cria precocemente com a sua mãe é muito importante para a sua vida futura, pois quanto mais intensa for, maior a probabilidade de sucesso na sua vida social e afectiva.
A tentativa de comunicação com os pais, inicia-se de forma muito própria – chora quando tem fome ou quando precisa da fralda mudada. O contacto visual com os pais, acalma-o e os pais, por sua vez, sentem-se também confortados ao consolar o bebé. Poderá haver casos em que os pais sentem uma grande dificuldade em acalmar o bebé, podendo isso dever-se a vários factores, como por exemplo, ser um bebé imaturo ou hiperactivo. As tentativas de relacionamento devem ser insistentes até que se tornem mais satisfatórias.
O primeiro sorriso do bebé é um marco na sua comunicação. Ele sorri ao reconhecer a face humana, antecipando o prazer que tem nessa partilha. Os pais irão prolongar e repetir essa experiência e o bebé irá reforçar a sua preferência nesta relação, embora reaja bem à presença de estranhos. Mais tarde não será assim...
Por volta dos 5 meses, sorri com muita facilidade, exigindo a presença ininterrupta dos pais.
É a partir dos 7 meses que a criança demonstra satisfação somente aos familiares e um enorme desagrado aos estranhos. Esta mudança deve-se ao facto de reconhecer a segurança que tem com os pais e por isso, repudiando os estranhos, que não lhe confere qualquer confiança.
Este período pode ser traumático tanto para a criança como para os pais, pois a criança exige a presença física dos progenitores a toda a hora. Aqui, os pais têm que ser firmes nas atitudes e permitir que a criança crie novos laços, com a ama ou a educadora, por exemplo. É necessário que a criança perceba que as separações não são definitivas e que os pais regressam sempre à sua companhia, para que assim, ela possa aceitar os cuidados de terceiros. Este é um processo natural e faz com que a criança tenha noção da sua individualidade.
É também neste processo que começa a fazer os primeiros exercícios de autonomia, como o dizer “não”, tendo atitudes de negação e assume a sua capacidade de se autoconsolar. Estes importantes suportes afectivos são até ao 1º ano de vida, a chucha ou o chuchar no dedo e até aos dois anos, são o fazer-se acompanhar de fraldas, almofadas ou bonecos. Estes comportamentos não devem ser contrariados e são inquestionáveis para a sua auto-regulação interna. São apêndices na falta do consolo materno.
Começa a surgir a “birra”, que é um comportamento que todos os pais receiam e ao qual ficam muito fragilizados emocionalmente. Se essa fragilidade lhes permitir fazer cedências, a criança repete o acto até satisfazer a sua vontade. A melhor atitude dos pais a tomar é ignorar, mostrando indiferença a essa provocação. Desta forma, a criança percebe que essa atitude é inútil e desistirá.
Também são de referir os comportamentos de repetição que a criança tem a esta altura. Pode fazer as mesmas coisas, como por exemplo, atirar coisas para o chão ou subir e descer de algum sítio, repetidamente durante algum tempo. É normal, pois a experimentação através da repetição é essencial para que a criança apreenda as aquisições necessárias ao seu crescimento.


AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

O INÍCIO DA LINGUAGEM. Nada é mais próximo do tema da infância, do que o fenómeno da aquisição de linguagem. Com efeito, a etimologia do termo ‘INFÂNCIA’ remete-nos a uma impossibilidade: o não-falar.
A palavra é originária do latim:* Infans, antis (in, fans fari), adj. 1. Que não fala, incapaz de falar, sem eloquência (…). 2. Incapaz ainda de falar, que tem pouca idade, de criança, infantil pueril (…) 3. m. e f. Criança (até aos 7 anos, em que há uma certa incapacidade para falar; sinónimo de puer). Infantia, ae,f. 1. Incapacidade de falar, mudez. 2. Falta de eloquência, dificuldade de expressão. *(do Dicionário Latim-Português da Porto Editora)
Na realidade, as bases para a aquisição da linguagem iniciam-se muito antes do bebé emitir e perceber qualquer palavra.
Aos pais, é importante que saibam estabelecer desde logo uma interacção com o bebé, provocando-lhe prazer na comunicação. Ainda em recém-nascido, e como já mencionado , o relacionamento estabelecido ainda precocemente com a mãe, desenvolve no bebé um tipo de comunicação que embora não tenha a componente linguística é fundamental para que seja feita a aquisição da linguagem. É neste período em que o bebé se limita, quase exclusivamente ao choro, que a mãe instintivamente, consegue identificar os diferentes choros (fome, dor ou desconforto) e com as primeiras vocalizações guturais do bebé ou vogais abertas, surgem as primeiras conversas entre mãe e filho.
Dos 3 aos 5 meses, o bebé tenta imitar as entoações do adulto, havendo já uma intenção de expressão. Deve-se verificar a audição do bebé, para ele poder entender e reproduzir bem os sons.
Dos 6 aos 9 meses, já reproduz consoantes combinadas com vogais abertas, como “pa”, “ta”, “ma”, mas não lhes atribui qualquer significado. A maturação do Sistema Nervoso Central permite-lhe vocalizar sons mais complexos com movimentos conjugados com a língua, lábios e palato e coordenar estes com a respiração, assimilando os ritmos, a entoação do discurso dos adultos. Os pais podem ajudar à compreensão da criança nomeando o nome dos objectos e das pessoas, para ajudá-la a fazer distinções.
Aos 8/9 meses começam a repetir as sílabas acima mencionadas, como “pa-pa”, “ta-ta”, “ma-ma”, mas continuam a não lhes atribuir qualquer significado, sendo apenas a associação de dois sons iguais.
Curiosamente, a sua linguagem receptiva está mais evoluída que a linguagem expressiva, ou seja se lhe perguntarmos «Onde está a mamã?» a criança procura a sua direcção. O gesto é associado à expressão, como por exemplo diz «não» com a cabeça, ou «adeus» com a mão.
Entre os 10 e os 15 meses, o gesto é conjugado ao som e diversifica-se, construindo sílabas e entoações com o significado de palavra, mostrando os seus interesses e as suas vontades. As primeiras palavras podem não ser «mamã» ou «papá», mas sim outras que tenham sido mais treinadas, como «não» ou «papa». A sua linguagem, em termos evolutivos, é caracterizada por Interpsicológica, que é uma linguagem dirigida a outros com o objectivo de satisfação das necessidades. Nesta fase, os jogos de expressão verbal e gestual, como por exemplo jogos tradicionais e música, devem ser utilizados nas brincadeiras com a criança, estimulando-lhe o ritmo, a cadência e a entoação do discurso.
Dos 18 meses aos 2 anos, o entendimento da verbalização cresce imenso. As variações de criança para criança são grandes, como em qualquer outra área de aprendizagem, dependendo sempre dos estímulos que recebe, mas geralmente, aos 18 meses já diz de 5 a 20 palavras perceptíveis e são generalizadas. Por exemplo, chama «cão» a todos os animais de quatro patas, mas depressa corrige, tendo a capacidade de distinção entre eles.
Com 2 anos, surgem as palavras-frase que são conjuntos de sílabas que traduzem a expressão de uma vontade, mas que normalmente não têm verbos.


Os pais e educadores devem sempre festejar as novas aquisições da criança, fazendo com que se sinta estimulada e recompensada pelas suas conquistas.

Texto elaborado por Sara Sousa

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