terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Adolescência


CONCEITO DE ADOLESCÊNCIA
A adolescência é uma etapa muito importante na evolução do ser humano porque representa um período de transformações e de experimentações que vão no sentido da procura e da construção da identidade. É através de um processo dinâmico que a adolescência se inicia e desenrola. Começa com a puberdade (fenómeno físico e biológico) e termina com a aquisição da identidade, da autonomia e da elaboração de um projecto de vida e da integração como ser social. Biologicamente, é mais fácil definir o início da puberdade e mais difícil situar o término da adolescência, pois este baseia-se em critérios psicológicos, sociais e culturais e todos estes critérios são variáveis, mudando de caso para caso. Podemos afirmar que a adolescência varia conforme cada infância, cada fase de maturação, cada família, cada época, cada cultura e cada classe social. De uma forma genérica, esta etapa existencial, na nossa cultura actual, abrange um período entre os 12-13 anos e os 18 anos. A ambivalência deste período liga-se com as transformações globais que ocorrem no indivíduo e que tornam o adolescente de difícil compreensão para os outros e até mesmo pelo próprio. É uma fase de inquietação pois existem sentimentos antagónicos que se comparam: autonomia versus dependência, crescer versus regredir. Na nossa sociedade actual é vulgar associar-se ao conceito de adolescência um conjunto de comportamentos problemáticos e desviantes relacionados com o consumo de droga, actos de vandalismo, violência, roubo e homicídios, gravidez prematura, suicídio e outros. As estatísticas parecem validar a ideia de que a adolescência é propícia a comportamentos delinquentes e atitudes de desvio, contudo, referem-se a jovens com comportamentos de desvio, os quais constituem um problema social grave. Porém, como se tratava de estudar a delinquência juvenil, os psicólogos não tinham como objectivo a observação de jovens com comportamentos socialmente aceitáveis. A delinquência juvenil existe e merece que os adultos se preocupem com ela, mas generalizar indevidamente conduz a preconceitos sociais.

ASPECTOS AFECTIVOS
As alterações físicas levam o jovem adolescente a voltar-se para si próprio, procurando entender o que se está a passar. Alguns adolescentes fecham-se muito sobre si próprios, não comunicando com os adultos. Por vezes, escrevem um diário, isolam-se, têm devaneios para tentarem corresponder a necessidades interiores que contribuem para se conhecerem melhor a si mesmos e desenvolverem-se emocionalmente. Os pares têm uma função muito importante, pois são neles que o indivíduo pode encontrar respostas para várias inquietações e questões como o “Serei normal?”, “Como será o meu futuro” ou “Só eu sinto as coisas desta forma?”. Os modelos de identificação deixam de ser os pais para passarem a ser os jovens da mesma idade, fazendo parte de um processo de autonomia e de individualização. Por vezes, os pais são alvos de severas críticas que estão relacionadas com este processo interno – os jovens não têm a verdadeira consciência das apreciações atribuídas aos pais e, em certos casos, podem sentir um vazio enorme, desprotecção, perturbação e incompreensão dos seus afectos. Esta incompreensão de que muitas vezes se sentem vítimas, é frequentemente, uma projecção da sua própria dificuldade em se compreenderem intimamente. A sua mudança fisionómica causa grande ansiedade. O adolescente tem que assumir uma imagem sexual do seu corpo, o que nem sempre é fácil, pois têm que fazer a distinção das transformações fisiológicas com a aceitação psicológica. A forma como cada um se autopercepciona e a forma como gostam de si é muito influenciada pelo meio onde vive e pela maneira como é aceite pelos outros. Nesta sociedade actual, existe uma certa tirania sobre os jovens, criando-se estilos padrões que não se coadunam a todos os corpos e assim, nasce a necessidade de se afirmarem como diferentes e originais, que alguns jovens demonstram na forma de vestir, de falar, nas atitudes e comportamentos. Ainda de salientar que nos aspectos afectivos, existe uma fragilidade e agressividade que se manifestam em súbitas alterações de humor. São frequentes crises de choro, de euforia e de melancolia. As grandes e globais alterações causam uma tensão tal que se traduz em impulsos não controlados.

ASPECTOS INTELECTUAIS
A adolescência é uma fase em que se obtém uma maturidade intelectual. Segundo Piaget, no quarto estádio das Operações Formais, o adolescente domina o pensamento puro, que o faz filosofar sobre vários aspectos, conduzindo-o ao egocentrismo intelectual, que o fará sentir-se o centro do universo e as suas teorias as melhores do mundo e as únicas correctas. Uma boa forma de lhes baixar o nível do egocentrismo e, simultaneamente, enriquecer-lhe os conhecimentos, será o debate sobre temáticas actuais e interessantes, como a toxicodependência, a homossexualidade e também, por exemplo, sobre a vida política. Vai permitir-lhe partilhar e ouvir diferentes opiniões e pontos de vista. O pensamento formal vai abrir novas perspectivas e exercitá-las através da aprendizagem, da crítica e da interrogação do futuro. No desenvolvimento psicossocial, o raciocínio hipotético-dedutivo permite ajudar na escolha de opções profissionais, na escolha de caminhos e construção do futuro. Estas novas capacidades cognitivas e o exercício das mesmas, permite-lhe reflectir antes de agir e manter uma certa distância relativamente aos conflitos emocionais. Há uma necessidade de coerência nas discussões intermináveis, no questionar os problemas e os argumentos expressos que são importantes na formação de ideias próprias.

ASPECTOS SOCIO-MORAIS
Com a entrada do jovem na adolescência, inicia-se o interesse por problemas éticos e ideológicos. Gosta de debater e faz opções, construindo valores sociais próprios. Os valores normalmente defendidos com grande radicalidade são, por exemplo, a liberdade, a lealdade, a coerência e a justiça social. A consciência de um novo estatuto e papel na comunidade leva-o a exercer uma nova socialização. Quando um adolescente descobre que a sociedade não se coaduna com as aspirações e valores que defende, revolta-se e defende uma perfeição moral, expressando um grande altruísmo. A forma como se vive a adolescência não só está relacionada com a infância, como também com o meio comunitário envolvente pelas suas dimensões geográficas, económicas e socioculturais. Esta ligação origina a forma como se faz a aprendizagem da vida e como se participa na vida cívica.
Aquando da adolescência é construída uma identidade pessoal, sexual e psicossocial. Esta crise de identidades que o jovem atravessa é explicada por Erikson que diz que a constituição de grupos de pares pode assumir um modelo de identificação positivo para o adolescente, pois o grupo pode dar certezas, mas por outro lado menos positivo, pode criar dependência. O jovem constrói a sua identidade por um processo de identificação e de diferenciação. Esta é uma fase de uma certa desorientação e de confusão, de avanços e recuos, de experimentações e de afirmações do ego, tudo contribuindo para a construção da identidade.

CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
A crise de identidade surge muitas vezes por diversos factores como a permanência em casa dos pais, a dependência económica e as restrições comportamentais, são entraves com que o jovem se debate quando pretende autonomizar-se, construir a sua identidade pessoal, situando-se assim num fluxo de forças contrárias que contribuem para que o jovem tenha que passar. Nesta fase pode adquirir identidades diversas: Identidade prescrita – É uma identidade que os jovens assumem quando são exteriormente direccionados, não questionando, nem resistindo, pelo contrário, aceitando passivamente os papéis que lhes são prescritos por alguém que detém autoridade sobre eles. A identidade destes jovens é, portanto, adquirida sem margem para manifestações de autonomia, sem necessidade de procurar experiências, sem hesitações nem sobressaltos, sem dificuldades, sem crises. Estes jovens evitam a ansiedade e as incertezas por que passam os que tentam encontrar-se a si próprios. Identidade difusa – O jovem entrega-se a tarefas que rapidamente abandona, experimentando sucessivos papéis, não encontrando nenhum que lhe assente bem. O sentimento de incerteza comum nos adolescentes faz com que avaliem superficialmente as alternativas e que se deixem fascinar por muitas delas, vivendo numa espécie de universo sem referências, em que as normas, valores, passado e futuro têm a marca da relatividade. O adolescente entrega-se ao presente, saltitando à cata de experiências, momentaneamente gratificantes, como se fosse desprovido de raízes, sem história, sem horizonte, sem nada a que se agarrar. Identidade adquirida – No final da adolescência, é suposto que o jovem tenha já construído uma noção a seu respeito, que apresente uma estrutura bem definida entre o seu passado, as experiências que teve e os vários papéis que desempenhou. Para que se sinta autónomo, sabendo quem é e o que deseja na vida, é necessário que sinta que os outros reconheçam a sua determinação em permanecer firme na forma de pensar, no agir, no sentir e projectar. Neste sentido, desempenha um papel fundamental, o relacionamento estabelecido com algumas pessoas que, por serem significativas, se constituíram como modelos de identificação.

MORATÓRIA PSICOSSOCIAL
No processo da construção da identidade, o jovem não fica imune a sobressaltos, paragens, hesitações e desvios de percurso. Na realidade, precisa de um período de pausa, afastando-se das pressões e exigências impostas pelo adulto. Interessa-lhe agora, experienciar a vida e as oportunidades que ela oferece, testando as suas capacidades em simultâneo. Erikson, designa por moratória psicossocial este “período de latência”, que se caracteriza por ser um período de compasso de espera, em relação aos compromissos adultos. A moratória, segundo Erikson, pode ser um período de vida boémia ou de devaneios imaginativos, de abnegação ou de extravagâncias. A moratória pode ser confundida com a difusão da identidade, dado que em ambos os casos, o adolescente parece andar sem rumo. No entanto, elas distinguem-se nas vivências subjectivas e nos objectivos prosseguidos. Na difusão da identidade, o adolescente anda sem rumo, mas não faz nada para o remediar, caracterizando-se pela fuga às responsabilidades e pela entrega ao prazer imediato. Na moratória, o jovem empenha-se na tarefa de encontrar um sentido para a sua vida; fá-lo sozinho, recusando caminhar pelas pegadas dos outros. A moratória resume-se a um período de espera que o jovem, responsavelmente, concede a si mesmo. Não se prolonga indefinidamente e a partir dela, o jovem pode construir a sua identidade ou cair na difusão.
No estado de difusão, o jovem pode aceder a uma moratória ou a uma identidade prescrita. Da identidade prescrita, é possível passar a uma fase de difusão ou de moratória. Quando o jovem adquire a sua identidade, pode entrar num estado de crise, vivendo um período de moratória ou de difusão. Assim, não se pode definir objectivamente o percurso que conduz à construção da identidade pessoal.

DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL
A evolução da psicossexualidade é explicada por Sigmund Freud e diz que desde que nasce, o ser humano procura obter prazer através de diferentes formas e de diferentes fases que vão variando ao longo do desenvolvimento. A adolescência, segundo Freud, inicia-se no estádio genital e compreende alguns fenómenos que ocorrem depois da puberdade. A puberdade traz novas pulsões sexuais genitais e o mundo relacional do adolescente é alargado para outras pessoas exteriores à família. Este facto permite que passe por um processo de autonomia em relação aos pais idealizados, que traz o encerramento do Complexo de Édipo. Freud considera ainda que face a algumas dificuldades características da adolescência, o jovem regride a fases do desenvolvimento anteriores, recorrendo a mecanismos de defesa do ego como, por exemplo a negação do prazer através do isolamento e a racionalização, ou seja, coloca toda a sua energia em actividades do pensamento como forma de esconder aspectos emocionais.

TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO
Existem várias concepções de desenvolvimento, que decorrem de diferentes teorias. Desenvolvimento Cognitivo – JEAN PIAGET – Consiste a partir de três elementos fundamentais: a estrutura, que se refere aos aspectos biológicos; a função, que trata das tendências básicas da espécie e o conteúdo, que se refere aos dados comportamentais. Para Piaget, o conhecimento é gerado através de uma interacção do sujeito com o seu meio, a partir de estruturas existentes no sujeito. Assim sendo, a aquisição de conhecimentos depende tanto das estruturas cognitivas do sujeito, como da sua relação com os objectos. Piaget subdivide o desenvolvimento intelectual em quatro estádios e a adolescência enquadra-se no estádio das operações formais (dos 11/12 anos aos 15/16 anos).
Desenvolvimento Psicossocial – ERIK ERIKSON – Discípulo de Freud, Erikson prediz que o crescimento psicológico ocorre através de estágios e fases, não ocorre ao acaso e depende da interacção da pessoa com o meio que a rodeia. Cada estágio é atravessado por uma crise psicossocial entre uma vertente positiva e uma vertente negativa. As duas vertentes são necessárias mas é essencial que se sobreponha a positiva. Propõe oito estádios de desenvolvimento tendo em conta aspectos biológicos, individuais e sociais. O estádio relativo à adolescência é o da 5ª idade – Adolescente (12 - 18/20 anos) cujo conflito é Identidade versus Difusão/Confusão e a virtude é Lealdade ou Fidelidade.
Desenvolvimento de Maturação – ARNOLD GESELL – analisou o comportamento infantil através de filmagens e fotografias, nas quais as crianças foram observadas em idades diferentes, estabelecendo pela primeira vez um desenvolvimento intelectual por etapas, semelhante ao seu desenvolvimento físico. Gesell e os seus colaboradores caracterizaram o desenvolvimento segundo quatro dimensões da conduta: motora, verbal, adaptativa e social. Nesta perspectiva cabe um papel decisivo às maturações nervosa, muscular e hormonal no processo de desenvolvimento.
Desenvolvimento Psicossexual – SIGMUND FREUD – Conhecido como o pai da psicanálise, para Freud o desenvolvimento humano e a constituição da mente explicam-se pela evolução da psicossexualidade. Um dos conceitos mais importantes da teoria psicanalítica sobre o desenvolvimento é a existência de uma sexualidade infantil que é sentida através de pulsões. A adolescência é um período singular em que se vivem experiências e encaram-se questões que nunca antes se tinham colocado e que dificilmente se repetem. A mudança, a transformação, a alteração são palavras-chave para caracterizar esta etapa e as modificações são a todos os níveis. O adolescente muda fisicamente assumindo novas formas de um corpo adulto, adquire novas capacidades intelectuais, nomeadamente no pensamento que passa de concreto para abstracto e dá-se inicio ao pensamento puro que traz a capacidade de pensar em hipóteses ou em conceitos abstractos. Esta nova capacidade, leva-o a reflectir e manifesta-se pelo egocentrismo intelectual. O adolescente considera-se apto a resolver todos os problemas e considera também que as suas ideias são, sem dúvida, as melhores. Ele actua como se os outros e o mundo, se tivessem que organizar em função dos seus pontos de vista, apresentando e defendendo as suas convicções pelo pensamento lógico-argumentativo, como foi salientado por Piaget. É também na adolescência que as relações com os pais se transformam no sentido de uma maior autonomia e os pares passam a constituir um ponto de referência e de identificação importante. O jovem inicia o envolvimento em relações de intimidade e partilha, criando uma nova forma de relacionamento e Freud define cinco estádios do desenvolvimento psicossexual, no qual o estádio genital (depois da puberdade) é o que corresponde à adolescência.

Texto elaborado por Sara Sousa


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